Textos autorais

My insides all turned to ash, so slow

 

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Olá, hoje o plano era post sobre o dia do amigo, mas não vai rolar, uma notícia triste inundou a internet a tarde, Chester Bennington, vocalista do Linkin Park foi encontrado morto em sua casa, suicídio por enforcamento, eu ainda não sei como lidar com isso, então, vou tentar escrever.

Acho que Linkin Park foi a primeira banda de muita gente, a porta de entrada para o rock e provavelmente todo mundo já tenha ouvido pelo menos uma vez na vida as músicas Numb, Crawling e In the end.

E como não fui diferente, Linkin Park entrou na minha vida bem cedo, eu devia ter uns 6 anos e ouvi o álbum Live in Texas e a partir daí começou uma grande jornada de admiração e de dias inteiros ouvindo seus álbuns no meu velho mp4 de tela trincada e bateria viciada. As músicas da banda me acompanharam na infância e na adolescência, me deram conforto nos dias tristes e me alegraram dos dias que precisava de muita animação para terminar uma faxina, nas longas idas e vindas para a escola onde o caminho era uma eternidade, eu tive um lado da minha parede só com poster da banda, tinha camisetas que infelizmente tive que desfazer porque a gente cresce (ou a roupa encolhe?) e ela mal passava na cabeça de tão apertada. A duplinha vocal Chester + Mike me acompanharam e acompanharam muita gente até hoje, e deixará uma grande saudade, a nossa geração se despedindo do dono dos maiores hits dos anos 2000.

Chester tinha depressão, sofreu um abuso na infância e acho que essas coisas que a mídia deveria falar sobre ele, me dói ver a mídia colocando em alta “problemas com álcool e drogas” e diminui sua saúde mental, que esses problemas que ele lidava são consequências da depressão. E acho que assim, válido reforçar, depois de tantos debates quando 13 reasons why foi lançado, cuidem umas das outras, sejam gentis, não diminuam a dor de alguém, não brinquem com os sentimentos dos outros, ninguém sabe das lutas que os outros estão passando, ninguém mesmo, então sejam legais, ser legal salva pessoas.

Não importa a classe social, todos nós temos problemas estamos vulneráveis a depressão, não é frescura, não é falta de deus, não é “é rico e ta reclamando a toa”, respeitem as lutas diárias das pessoas!

Enfim, eu estou a tarde toda olhando para tela tentando escrever, não saiu como eu queria, mas acho que consegui passar alguma coisa, é isso, Chester fará falta e sempre será lembrado pela nossa geração.

Saúde mental também é importante!

Tem pensamentos suicidas? A CVV pode ajudar você, ligue para 141, acesse o site para mais informações www.cvv.org.br

E encerro o post com minha música queridinha, que aliás a primeira frase levou o título desse post.

Textos autorais

Os gritos que ignoramos

“Antes de começar essa crônica esclareço que, sendo homem infelizmente nunca vou saber o que realmente é ser mulher e os sentimentos bons que elas trazem consigo (também acho que nenhum homem conseguira descrever esses sentimentos por completo), conheço várias histórias felizes de mulheres que se deram bem na vida, mas também conheço histórias de violência doméstica, entre outras violências mais fortes. E é esse tema que vou trazer na pequena narrativa da vida de uma mulher sofrida que dei o nome de Luíza, dizem que o único jeito de mudar o pensamento de alguém é impactando-o, espero que minha crônica impacte ao menos uma pessoa, para que ela tenha consciência do valor da mulher e de como podemos mudar essa realidade nos dias atuais.”


Dona Luíza, mulher de cinquenta e poucos, sempre morou em casas simples, teve infância sofrida, levava surras dos pais e dos irmãos enquanto a mãe simplesmente ficava calada, conseguiu estudar até a quarta série, depois disso seu pai falou que não precisava mais estudar, conseguiu para ela um trabalho como empregada doméstica, foi humilhada e subjugada por patrões e patroas, comeu o que o diabo amassou nas mãos da elite da cidade.

Quando adulta, começou a namorar Afonso, homem sério, maduro, alguns anos mais velho, mas era trabalhador. Casou-se, quando enfim pensou ter se livrado do fantasma da violência, ele voltou ainda mais forte.

Afonso bebia. Nunca deixou faltar comida em casa, mas também nunca deixou que Luíza ficasse com algum roxo pelo corpo, sua forma favorita de bater quando estava bêbado era com um pedaço de ripa que ficava guardada nos fundos da casa, Luíza tentava se livrar do pedaço de pau, mas o marido a advertia que se algo acontecesse com a sua “madeirinha”, seria muito pior.

Das vezes que Luíza não aguentava tanto sofrimento, ia se deitar, rezava aos céus para que o tormento acabasse, era devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e suplicava à Mãe de Deus que sua vida melhorasse.

Momentos felizes eram poucos, na maior parte das vezes era quando Afonso voltava são para casa, trazendo uma boa mistura para janta e alguns mimos para ela, e assim os dois se amavam, mas quando o vil chegava em casa mais agressivo que o normal, não se contentava em só usar a “madeirinha” ele partia para cima dela usando o “pau grosso” (um apelido asqueroso que ele usava para seu sexo, isso fazia com que Luíza sentisse repulsa dele). E assim sem consentimento a possuía.

Sua fé não se abalava com isso, mesmo com violência atrás de violência ela continuava firme, até que veio um filho após o outro como escadinha, foi um momento de paz, Afonso não a tocava pois sabia que se daria muito mal, caso algo acontecesse com ela e seus filhos. Luíza somente rezava aos céus para que os filhos nunca fossem iguais ao pai, ou nunca sofressem igual a ela.

Após anos de dor, seus filhos cresceram, todos doces e bondosos, graças a Deus, suas almas puras e inocentes não foram manchadas pela maldade do pai, e então como bênção dos céus, Afonso caiu doente, o médico lhe deu um ultimato: “Ou o senhor encomenda o caixão e continua bebendo, ou viva sua vida sem uma gota de álcool”, Afonso não era bobo nem nada, largou a “branquela” para poder viver melhor consigo mesmo.

Os anos subsequentes foram melhores, Dona Luíza agora tinha algumas faxinas e conseguia um dinheirinho, Afonso não era mais agressivo, enfim a paz, mas ainda assim algo a incomodava.

Na primeira vez que viu o mar pela televisão ficou hipnotizada, nunca o tinha visto, e fez como meta de sua vida ir visitá-lo. Acompanhava novelas, não para saber sobre personagens ou ter algo para conversar com a vizinha, mas sim para ver pessoas sorrindo, uma praia de areia branca e a vastidão do azul infinito.

Economizou por muitos anos sem que o marido soubesse, conseguiu um bom dinheiro para passar pelo menos uma semana em uma cidade litorânea, ela se atualizava constantemente com algumas amigas por um grupo no Whatsapp (não é porque era uma mulher simples que não poderia utilizar a tecnologia ao seu favor). Tudo já estava pronto, dali uma semana poderia enfim tirar um tempo exclusivamente seu após uma vida inteira de sofrimentos.

Ela tinha um mantra que passou a usar alguns dias antes de sua viagem: “Só mais X dias, só mais X dias”, e esse mantra usou durante a semana inteira, principalmente no domingo, o dia que mais odiava.

No domingo, um dia antes de sua viagem, a rotina foi a mesma, além de trabalhar durante a semana inteira, no final de semana precisava fazer a faxina geral na própria casa, e era nesse dia que os filhos sumiam e o marido ficava no computador vendo sites de vendas de imóveis (ao qual nunca iria comprar nenhuma das casas anunciadas). Na hora do almoço ela ficava sozinha na cozinha, preparando macarrão. Frango cozido e várias outras coisas deliciosas, e quando tudo estava pronto magicamente todos apareciam sabe-se lá de onde.

Já cansada da rotina, Dona Luíza sentou-se na sua poltrona preferida, onde podia ler um pouco de revista, ou simplesmente ficar pensando sobre a vida que tinha, aos poucos ela começou a ter um pouco de dificuldade de respirar.

“É só o tempo abafado”, convenceu a si mesma.

Seu estômago começou a doer enquanto seu braço formigava.

“Maldito molho de macarrão, atacou meu estômago, e arrastar os móveis deixou meu braço formigando agora que me corpo esfriou”.

A dor começou a ficar cada vez mais aguda, dona Luíza decidiu então se levantar para tomar um um remédio para diminuir a dor, mas ao se levantar sua visão turvou-se, ela cai sobre o tapete da sala, fechando seus olhos para a eternidade. Ataque fulminante.

Morre assim dona Luíza, que também pode ser chamada de Cristina, Fernanda, Maria, Josefa, Ana. Rita, Fátima e tantos outros nomes, mulheres que passam despercebidas por nós pelas ruas, mulheres que são invisíveis e sofrem caladas, mulheres que não tem o devido valor em casa, mulheres que podem estar ao seu lado enquanto lê esse texto e que não querem um simples parabéns numa data pré-programada pelo comércio e mídia. Na realidade o que essas mulheres querem são os seus direitos respeitados e serem congratuladas (de preferência todos os dias) pelo incrível trabalho que fazem pela sociedade e pela própria família.

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